Lendo a Caverna do Saramago, na passagem em que o velho oleiro está apanhando com uma manual para aprender a fazer moldes de gesso para a fabricação em série de bonecos de barro, seu novo produto, uma vez que seus canecos, pratos e panelas de barro o "Centro" não queria mais, lembrei-me de meu último trabalho na Espanha. A tradução de manuais para o português.
Detalhe: eu sempre odiei manuais.
Estava em Girona, recém recuperado de uma crise de ciática que me aboletou numa cama justo quando estava para ir à Ibiza, o que talvez tenha me salvo da morte por prazer. Foi um período de descanso, estava com a Sabrina, que cuidou de mim, já que eu tava num bagaço físico-químico e emocional. Passaram-se uns 15 dias assim, no sossego, até que tive que sair da casa em que estava, a Sabrina teve que voltar à Madrid e eu nada de melhorar. Fui me instalar na casa da Conceição, anjo da guarda gaúcha, que conseguiu tudo pra mim em Girona. Mas eu estava pior, inválido na cama. Comecei a pegar nojo da cidade, da Europa. Aí fui melhorando. No dia que digo, estou bom, recebo um mail de uma empresa de tradução. Liguei e era isso, teria que ir a Madrid fazer o trabalho. Começava aí, sem saber minha volta ao Brasil.
Cheguei em Madrid no dia 7 de setembro, e era festa na casa do Brasil. Ali encontrei a Miriam, mãe do Enrique e que iria me acolher mais uma vez para que fizesse o trabalho, e a Karen, minha ex-namorada, indignada pelo fato de eu estar com outra sem sua conciência. Fomos todos os brasileiros e simpatizantes para sua casa bebemorar. A Sabrina iria sair com amigas para evitar constrangimentos. Algumas horas depois, as pessoas começaram a ir embora e a K pediu que eu ficasse. Discutimos, mas nos acalmamos. Quando fui sair, a porta não queria abrir. Tentei com força, com alicate, com a mente, nada, a porta não abria. Resolvemos dar um tempo e voltamos à conversa. Pra que? Tudo que estava já mais calmo novamente se enturvou, voltaram gritos e choros. Depois de tentar dormir e nada. fui à porta. Como que dando a autorização, como se a madeira e o aço portassem intenções de um Deus que se por acaso existisse, a porta abriu. Fui embora.
Minha reunião com o dono da editora seria dali a algumas horas. Estava um caco. Mas nada adiantou, após um café, ele me entregou os calhamaços em espanhol e inglês para a tradução. Deveria ser compreendido em Portugal, talvez o próprio Saramago as tivesse que ler.
Foram uns 15 dias de café, computador e dicionários. Nunca tive paciência para ler manuais, e ali estava eu, digerindo palavras e regurgitando-as em outra língua. As diferenças do português para o "brasileiro" vão surgindo, novamente a Mirian "a me ajudar". E o ódio crescendo. Entreguei, recebi, comprei a passagem e me mandei para o Brasil, a salvo.
Às vezes pensava nos problemas que instaladores de portas automáticas poderiam estar tendo ao ler aquele estranho português do manual, mas talvez confiem em uma conciência da portas, trasmitidas através do aço e parafusos, com a intenção de algum Deus. Espero que estas portas se abram quando seus donos queiram. Ou quando os assuntos tenham terminado.